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Maria Alcina e Renegado

Mundo Virtual

Sem rodeios:
nos chats,
os fins justificam os mails…

Leila Míccolis

sutilmente

Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes

Leila Miccolis

Festa Julina

Confesso que nunca tive muita atração por festa junina. Acho quentão enjoativo, nunca gostei de doces e não tenho amor sincero por quadrilhas. Pq então apesar disto tudo, meu chefe acha que eu tenho que ajudar a organizar a festa junina da empresa? nham? só pra me sacanear e me fazer passar raiva ne?

Válvula de Escape

Fica minha modesta homenagem ao homem que soprou meus pensamentos nos ultimos dias, o qual admiro e amo muito. Caio Abreu. Um pedaço do que eu vivo.

“(…) Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter. Afinal, trata-se apenas de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.

Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou a fora já. Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro.(…)”

Post    Válvula de Escape

É preciso chorar. As lágrimas são a chuva da gente, nuvens do nosso tempo íntimo precisam desabar. É preciso chorar, lágrimas são os rios do ser, as cachoeiras da gente, mudam nosso tempo simples, atualizam o nosso mar. É preciso chorar, é preciso à natureza copiar,  é preciso aliviar e molhar a seca do coração. Se não chover vira sertão, morre homem, morre gado, morre plantação.

(Elisa Lucinda)

Non, je ne regrete rien

… eu não lamento nada.

Trato

Ficamos assim: você joga as queixas no telhado, eu ponho as manias de lado, você lava a escadaria, eu rego o jardim. Podemos varrer juntos as nódoas secas aderentes ao passado. Se você se habilita, eu me disponho, num desafio à desdita. Você acende a luz, eu desempeno o sonho, enquanto você ensaia o passo, eu troco a fita. Na mesa torta, a toalha colorida. O resto é fácil: basta mandar flores ao futuro, derrubar o muro e acreditar na vida.

(Flora Figueiredo)

A lista

A lista de mortos da gente vai aumentando com o tempo. Quando eu era pequena não tinha noção desse morre e nasce. Mesmo porque ninguém meu morria. Tudo tinha um quê tão definido de eternidade, tudo durava tanto e a vida não faltava; a vida era pontual como os quintais e as goiabeiras ali. Todo dia ali. Existindo.  Eu não tinha a mínima noção desse vai-e-vem. Desse revezamento. Desse rodízio da humanidade: quem vai pro saque, quem sai do jogo, quem é escalado, quem vai pra reserva.  Nada disso havia na minha menina. Agora não. Agora morreu Tião Sá, o filho do Joelson, a mãe de Márgara, Chiquinho Brandão, minha Mãe, minha irmã, Bukowski, Cazuza, Grande Otelo, Mario Quintana, Senna, Fellini, Sérgio Sampaio e tantas mil gentes engrossando a fileira da bola fora. O itinerário das vias de cada um vai estourando como bolas de aniversário na minha cara e vai ficando longe o tempo em que os meus não morriam. Nem quando eu queria. Deus com certeza ri. Não de sarcasmo. Mas pelo costume de ver passar as boiadas. E de olhar pra elas despencando na curva final das planícies. Pra onde, só Deus sabe. E é por isso que ele ri.

(Elisa Lucinda)

O mundo vive em você

Você pode dizer adeus a sua família e a seus amigos e afastar-se milhas e milhas e, ao mesmo tempo, carregá-los em seu coração, em sua mente, em seu estômago, pois você não apenas vive no mundo, mas o mundo vive em você.

(Frederick Buechner)

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